Leia atentamente a letra da música:
Geleia Geral
Gil e Torquato Neto
(...) um poeta desfolha a bandeira
e a manhã tropical se inicia
resplandecente candente fagueira
num calor girassol com alegria na geleia geral brasileira
que o jornal do brasil anuncia
ê bumba-iê-iê-boi
ano que vem mês que foi
ê bumba-iê-iê-iê
é a mesma dança meu boi (...)
(é a mesma dança na sala
no canecão na tv
e quem não dança não fala
assiste a tudo e se cala
não vê no meio da sala
as relíquias do brasil:
doce mulata malvada
um elepê do sinatra
maracujá mês de abril
santo barroco baiano
superpoder de paisano
formiplac e céu de anil
três destaques da portela
carne seca na janela
alguém que chora por mim
um carnaval de verdade
hospitaleira amizade
brutalidade jardim) (...)
Sobre o movimento cultural que teve lugar no Brasil, na década de 60, e que se manifestou sobretudo na música popular com autores como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé e outros, é correto afirmar que
Observe as canções que seguem:
I
Sobre a cabeça os aviões,
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
meu nariz.
Eu organizo o movimento,
eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no
Planalto Central do país.
Viva a bossa-sa-sa.
viva a palhoça-ça-ça-ça-ça.
II
Se você disser
Que eu desafino amor.
Saiba que isso em mim
Provoca imensa dor.
Só desafinados
têm ouvidos iguais ao teu.
Eu possuo apenas
o que Deus me deu.
Ambas as canções fazem parte da cultura brasileira e estão vinculadas, respectivamente, aos movimentos musicais:
A partir dos anos 1970, a diversidade étnica e cultural ganha maior reconhecimento com movimentos culturais, tais como o “Tropicalismo”, os “Afrobahianos”, as inserções de referências religiosas afro-brasileiras na Bossa Nova e o “Teatro do Oprimido”. Tudo isso foi antecipado pelo Movimento de Cultura Popular, fundado por Paulo Freire nos anos de 1960.
MEDEIROS, B. T. F. Quilombos, políticas patrimoniais e negociações. In: BARRIO, A. E.; MOTTA, A.; GOMES, M. H. (Org.). Inovação cultural, patrimônio e educação. Disponível em: http://campus.usal.es. Acesso em: 4 set. 2017 (adaptado).
Essa ideia nacionalista surgiu dos sonhos de Mário de Andrade e da Semana de Arte Moderna de 1922, que visava o(a)
Tropicália
Sobre a cabeça os aviões
Sob os meus pés os caminhões
Aponta contra os chapadões
Meu nariz
Eu organizo o movimento
Eu oriento o carnaval
Eu inauguro o monumento no planalto central
do país
(...)
O monumento não tem porta
A entrada é uma rua antiga, estreita e torta
E no joelho uma criança, sorridente, feia e morta
Estende a mão
(...)
www.caetanoveloso.com.br
O disco e a música Tropicália tornaram-se símbolos do “Tropicalismo”, movimento protagonizado por artistas e intelectuais, no Brasil, em finais da década de 1960. Esse movimento destacou-se, principalmente, pela seguinte proposta:
Observe a foto a seguir:
O termo Tropicália nasce como nome da obra de Hélio Oiticica exposta na mostra Nova Objetividade Brasileira, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ, em abril de 1967. A obra pode ser descrita como um ambiente labiríntico, com plantas, areia, araras, poemas-objetos, capas de Parangolé e um aparelho de televisão.
Fonte: http://obviousmag.org/my_cup_of_tea/2015/03/arte-brasileira---antropagia-cultural-e-o-movimento-tropicalista.html
O homônimo da arte apresentada por esse artista plástico foi o movimento musical, que tinha como uma de suas características a
Mesmo tendo a trajetória do movimento interrompida com a prisão de seus dois líderes, o tropicalismo não deixou de cumprir seu papel de vanguarda na música popular brasileira. A partir da década de 70 do século passado, em lugar do produto musical de exportação de nível internacional prometido pelos baianos com a “retomada da linha evolutória”, instituiu-se nos meios de comunicação e na indústria do lazer uma nova era musical.
TINHORÃO, J. R. Pequena história da música popular : da modinha ao tropicalismo . São Paulo: Art, 1986(adaptado).
A nova era musical mencionada no texto evidencia um gênero que incorporou a cultura de massa e se adequou à realidade brasileira. Esse gênero está representado pela obra cujo trecho da letra é:
Eu não tenho hoje em dia muito orgulho do Tropicalismo. Foi sem dúvida um modo de arrombar a festa, mas arrombar a festa no Brasil é fácil. O Brasil é uma pequena sociedade colonial, muito mesquinha, muito fraca.
VELOSO, C. In: HOLLANDA, H. B.; GONÇALVES, M. A. Cultura e participação nos anos 60. São Paulo: Brasiliense, 1995 (adaptado).
O movimento tropicalista, consagrador de diversos músicos brasileiros, está relacionado historicamente
Foi em 1967 que o centro de São Paulo recebeu uma multidão de pessoas que marchavam contra aguitarra elétrica. A passeata, liderada pelo ícone da MPB Elis Regina, ao lado de outros nomes, como Gilberto Gil, tomou conta das ruas.
Os militares da ditadura se aproveitaram da ideia para promover uma perseguição contra os músicos que utilizavam a guitarra elétrica.
De qualquer modo, a guitarra viraria um símbolo de resistência contra a ditadura e viria a abrir uma nova era da música no Brasil.
(Giovanna de Matteo. “O peculiar dia em que Elis Regina liderou a marcha contra a guitarra elétrica”. www.uol.com.br, 2020. Adaptado.)
O controverso episódio retratado no excerto diverge dos valores do principal movimento musical que representa a contracultura no Brasil, denominado
Leia os versos da canção chamada "Tropicália", composta por Caetano Veloso, e observe as imagens a seguir:
"No pulso esquerdo o bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração
Balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes
Senhoras e senhores
Ele põe os olhos grandes sobre mim"
(a) GUERCHMAN, R. Capa do disco Tropicália, ou Panis anis et Circensis. 1968
(b) DIAS, A. Coração para amassar, 1966.
(c) CLARK, L. Máscaras sensoriais. 1967.
Com base nos versos, nas imagens e nos conhecimentos sobre o tema, é correto afirmar que o Movimento Tropicalista:


No Brasil, após a eclosão da Bossa Nova, no fim dos anos 1950 – quando efetivamente a canção popular começou a ser objeto de debate e análise por parte das elites culturais – desenvolveram-se duas principais vertentes interpretativas da nossa música: a vertente da tradição e a vertente da modernidade, dualismo que não surgiu nesta época e nem se restringe ao tema da produção musical. Desde pelo menos 1922, a tensão entre “tradicional” e “moderno” ocupa o centro do debate político-cultural no país, refletindo o dilema de uma elite em busca da identidade brasileira.
ARAÚJO, P. C. Eu não sou cachorro, não. Rio de Janeiro: Record, 2013.
A manifestação cultural que, a partir da década de 1960, pretendeu sintetizar o dualismo apresentado no texto foi:
O álbum de músicas Tropicália ou Panis et circensis foi lançado em 1968. A fotografia que estampou sua capa foi realizada na casa de Oliver Perroy, fotógrafo da Editora Abril, em São Paulo. Cada um levou seus apetrechos, até um penico, comicamente usado por Rogério Duprat como se fosse uma xícara. A imagem ficou tão famosa que se tornou uma espécie de cartão-postal do movimento tropicalista.
Adaptado de f508.com.br.
No contexto do final da década de 1960, o Tropicalismo, que causou polêmicas com produções como a do álbum citado, tornou-se símbolo de:
“O tropicalismo buscava revolucionar a linguagem e o comportamento na vida cotidiana, incorporando-se simultaneamente à sociedade de massa e aos mecanismos do mercado de produção cultural. Criticava ao mesmo tempo a ditadura e uma estética de esquerda acusada de menosprezar a forma artística. Articulava aspectos modernos e arcaicos, buscava retomar criticamente a tradição brasileira e absorver influências estrangeiras de modo ‘antropofágico’.”
Marcelo Ridenti, “Cultura”, em Daniel Aarão Reis (org.), Modernização, ditadura e democracia: 1964-2010.Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 256.
O tropicalismo, no contexto cultural brasileiro dos anos 1960 e 1970,
Atente para o seguinte excerto sobre sociedade de massa no Brasil:
“A consolidação da chamada sociedade de massa no Brasil trouxe consigo a expansão dos meios de comunicação, tanto no que se refere ao lazer quanto à informação, muito embora seu raio de ação ainda fosse local. O rádio cresceu no início dos anos 50, quando houve um aumento da publicidade. As populares radionovelas, por exemplo, tinham como complemento propagandas de produtos de limpeza toalete. Na televisão, a publicidade não se limitava a vender produtos, e as próprias empresas eram produtoras dos programas que patrocinavam. [...] O cinema e o teatro também participaram desse processo, tanto do lado das produções de caráter popular quanto das produções mais sofisticadas [...]”.
Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/artigos/sociedade-cultura-nos-anos-1950
Entre os movimentos que caracterizaram o desenvolvimento da cultura de massa no Brasil nos anos de1950, destaca-se
TEXTO I
Cinema Novo
O filme quis dizer: “Eu sou o samba”
A voz do morro rasgou a tela do cinema
E começaram a se configurar
Visões das coisas grandes e pequenas
Que nos formaram e estão a nos formar
Todas e muitas: Deus e o diabo, vidas secas, os fuzis,
Os cafajestes, o padre e a moça, a grande feira, o desafio
Outras conversas, outras conversas sobre os jeitos do Brasil
VELOSO, C.; GIL, G. In: Tropicália 2. Rio de Janeiro: Polygram, 1993 (fragmento).
TEXTO II
O cinema brasileiro partiu da consciência do subdesenvolvimento e da necessidade de superá-lo de maneira total, em sentido estético, filosófico, econômico: superar o subdesenvolvimento com os meios do subdesenvolvimento. Tropicalismo é o nome dessa operação; por isso existe um cinema antes e depois do Tropicalismo. Agora nós não temos mais medo de afrontar a realidade brasileira, a nossa realidade, em todos os sentidos e a todas as profundidades.
ROCHA, G. Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma. In: Revolução do Cinema Novo. Rio de Janeiro: Alhambra; Embrafilme, 1981 (adaptado).
Uma das aspirações do Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro dos anos 1960, incorporadas ela letra da canção e detectáveis no texto de Glauber Rocha, está na
Leia os seguintes versos.
"Sobre a cabeça os aviões
sob os meus pés os caminhões
aponta contra os chapadões
meu nariz
Eu organizo o movimento
eu oriento o carnaval
eu imagino o monumento
no planalto central
do país"
Esses são versos iniciais da canção de Caetano Veloso que constituiu a matriz estética de um movimento musical do final da década de 60, de curta duração, em que, segundo estudiosos, "a preocupação política foi deslocada da área da revolução social para o eixo da rebeldia, da intervenção localizada, da política concebida enquanto problemática cotidiana, ligada à vida, ao corpo, ao desejo, à cultura em sentido amplo".
(Heloísa Buarque de Holanda e Marcos A. Gonçalves, "Cultura e participação nos anos 60".)
Esse movimento musical é conhecido como
Dentre os diversos artefatos culturais produzidos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), o disco Tropicália ou Panis et circenses (1968) assinalou, a um só tempo, um choque e uma inflexão no modo de fazer e pensar a música popular do país. Lançado em dezembro de 1968, ele trazia em sua concepção frescor inventivo e irreverência. Com recursos da paródia, do pastiche e, sobretudo, da alegoria, o tropicalismo retirou das contradições da sociedade brasileira a matéria-prima de sua produção simbólica.
(Adaptado de: PONTES, H e outros. “Da orla à sala de Jantar”. Novos Estudos Cebrap, 38 (3), 2019.)
(GERCHMAN, R. Capa do Disco Tropicália ou Panis Et Circensis, 1968.)
Analisando texto e imagem, responda:
a) A imagem trabalha com contraposições construídas pelo movimento tropicalista. Identifique dois pares de elementos culturais que estão em oposição e justifique sua escolha.
b) Explique qual a visão do movimento tropicalista sobre a identidade nacional brasileira. Cite uma produção cultural desse movimento que ilustre o seu argumento.