Sete anos de uma discussão sobre trabalho, malandragem e o que um sambista podia dizer — e o Estado que, no meio dela, comprou a maior rádio do país.
Problema norteadorUm Estado consegue mudar o que uma canção diz sem precisar proibi-la?
EM13CHS101 Analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão e à crítica de ideias filosóficas e processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.
EM13CHS404 Identificar e discutir os múltiplos aspectos do trabalho em diferentes circunstâncias e contextos históricos e/ou geográficos e seus efeitos sobre as gerações, em especial, os jovens e as gerações futuras, levando em consideração, na atualidade, as transformações técnicas, tecnológicas e informacionais.
EM13CHS602 Identificar, caracterizar e relacionar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da cidadania.
No ENEM
Matriz de Referência do ENEM. Ciências Humanas e suas Tecnologias: H1 — Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura; H21 — Identificar o papel dos meios de comunicação na construção da vida social.
Para treinar: questão 8 da lista do capítulo 2, questão 10 da lista do capítulo 2.
Censura, para o aluno, é proibição e corte. O caso mostra a forma mais eficaz e menos visível: o conselho, a sugestão, o acesso ao microfone — o autor trocando o próprio verso antes que alguém precise proibir.
A discussão sobre trabalho já existia entre os sambistas em 1933, sem Estado nenhum mandando. O que muda em 1940 não é o tema: é quem ganha a discussão, e por quê.
O aluno vê o mesmo compositor mudar de lado em sete anos e tem de decidir se aquilo é convicção, sobrevivência ou pressão — sem que o professor entregue a resposta.
Dá o Estado Novo por dentro e verificável: o DIP, o trabalhismo, uma emissora encampada, um verso trocado. E dá a outra metade: o mesmo Estado que discipliná o samba é o que o promove a cartão de visita do Brasil.
Conteúdos envolvidos
Alguém está sendo repreendido dentro de um samba. A turma responde a duas perguntas: quem está falando com quem, e o que exatamente está sendo exigido?
Revela-se o alvo e escuta-se Lenço no pescoço, de 1933. Fica claro que a briga é sobre o que um sambista deve parecer — e que, já em 1933, um deles exigia trabalho do outro, sem que nenhum governo mandasse. E a exigência não era moral: Noel se dirigia ao público que consumia samba e tentava construir uma imagem respeitável para a profissão de compositor.
A resposta de Noel só chegou ao disco cinco anos depois, na voz de Aracy de Almeida, quando ele já havia morrido. Discussão sobre o que separa compor, gravar e circular.
Escuta de O bonde de São Januário, sem dizer quem assina. O que essa gravação parece querer que o ouvinte sinta ao acordar de manhã? Só então se revela que quem assina é o mesmo Wilson Batista de 1933 — e que ele agora canta exatamente o que lhe haviam exigido.
Entram os dois documentos: o decreto de março de 1940, pelo qual a maior emissora do país passa a ser do governo, e o material do CPDOC sobre o aconselhamento aos compositores. Revela-se então o verso que ficou de fora, aquele em que o passageiro do bonde justamente não ia trabalhar.
Que Brasil essa gravação mostra, e o que ela deixa de fora? Duas listas, feitas pela turma.
Proibir, cortar, aconselhar, premiar, dar ou negar o microfone. Um exemplo para cada, tirado da própria aula.
O parecer de um técnico do DIP em 1940 sobre uma canção real, e depois a crítica do historiador ao parecer que o próprio aluno acabou de escrever.
A repreensão que abre a aula: alguém exige trabalho de alguém, e a turma não sabe de quem se trata.
OuvirO que veio antes, e o que estava sendo repreendido.
OuvirO mesmo Wilson Batista, sete anos depois, cantando o que lhe haviam exigido.
OuvirO mesmo Estado que discipliná o samba promovendo-o a cartão de visita do país.
OuvirDois textos, do mesmo aluno. Primeiro, o parecer de um técnico do DIP em 1940 sobre uma canção real, escrito na lógica e no vocabulário do órgão. Depois, a crítica do historiador ao parecer que ele mesmo acabou de escrever, apontando o que aquela lógica tratava como natural e não era.
Critérios